África<br>na mira do imperialismo

Albano Nunes

Solidariedade prioritária para com as forças progressistas e os povos que estão na linha da frente

A ofensiva do imperialismo em África está em pleno desenvolvimento. Os reais objectivos da «Operação G-8» que denunciamos, estão a ser confirmados todos os dias. Temos de continuar vigilantes e activos na denúncia. Por razões de princípio, frente a uma ofensiva que é global e abarca todo o planeta. Mas também por razões específicas que têm que ver, quer com a política externa portuguesa, quer com as relações internacionais e os concretos deveres de solidariedade internacionalista do PCP.

É certo que os principais combates de resistência anti-imperialista se situam noutras latitudes, e em primeiro lugar no Médio Oriente e Ásia Central, sem esquecer a Península da Coréia, as Caraíbas, os Bálcãs e outros pontos do mundo. São combates em que a reacção e o imperialismo estão a ser freqüentemente forçados a recuos (como na Colômbia) que reflectem as suas dificuldades no terreno. Dificuldades que são particularmente sérias no Iraque e no Afeganistão onde as pesadas baixas infligidas nos últimos dias às forças de ocupação, estão a colocar o imperialismo norte-americano à beira de um ataque de nervos. Mas a solidariedade prioritária para com as forças progressistas e os povos que estão na linha da frente não deve distrair de outras graves situações. Do mesmo modo que temos de alertar para a inquietante ofensiva contra direitos e liberdades fundamentais conduzida na Europa sob a batuta fascizante de Blair (a G.B. ocupa a Presidência da U.E., não o esqueçamos) temos de dar crescente atenção à ofensiva recolonizadora do continente africano, ofensiva que se desenvolve de modo particularmente cínico e com contornos racistas cada vez mais salientes.

Neste sentido o artigo «Os Estados Unidos tentam travar a Al-Qaeda em África», inserto no «Público» de 30.07.05, merece ser destacado de entre a abundante literatura alimentada pelos centros de diversão ideológica do imperialismo e que, sorrateiramente, vai preparando o clima favorável a novos crimes contra povos e países soberanos. Aí se escreve, como se da coisa mais natural do mundo se tratasse, que « os Estados Unidos estão a dar início a um programa de intervenção militar, logística e diplomática em África com o objectivo de conter a expansão da Al-Qaeda e de outras redes terroristas. A Administração do Presidente George W. Bush justifica a presença militar no continente como parte da ‘guerra global contra o terrorismo’ citando questões de segurança nacional e de proteção de fontes alternativas de petróleo ... Pretende-se também criar um conjunto de bases militares interligadas que estarão espalhadas entre as regiões do Corno de África, África Ocidental, do Centro e Austral ... Estima-se que as novas bases operacionais no continente terão entre 3 e 5 mil militares, pistas de aterragem e hangares para aviões ... A predominância da pobreza, má governação, corrupção e criminalidade, e a ausência de tradições democráticas, faz com que o continente africano seja terreno fértil onde organizações terroristas possam operar, recrutar combatentes e planear estratégias de ataque transnacionais e internacionais».

Perdoe-se a extensão da citação, mas está cá tudo ou quase sobre os reais objectivos da «guerra ao terrorismo», trate-se de Bush, de Blair, da NATO ou da União Européia. Ou mesmo do governo do PS, que na continuidade da política subserviente dos anteriores governos enviou Freitas do Amaral a Washington, entre outras coisas, para oferecer a sua prestimosa cooperação aos EUA na sua política africana. A compreensão do que se passa no Congo ou em S. Tomé e Príncipe (a transformar-se num gigantesco porta-aviões dos EUA), no Zimbabwé ou na Guiné-Bissau (onde é por demais evidente a ofensiva para afastar o PAIGC do poder), no Sudão (onde a morte de Jonhn Garang é suspeita de assassinato político) ou em qualquer outro país africano, não é possível sem levar em consideração a ofensiva em curso de recolonização deste martirizado continente.


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